FANTASMA NA MÁQUINA
Comentários
Continuando a série, ou melhor, finalizando, sobre Xu Lizhi, o trabalhador da Foxconn que tirou a própria vida em 2014, deixo essa tradução do livro que foi organizado por amigos e colegas dele, reunindo todos os seus poemas (originalmente traduzidos para o inglês). Traduzir poesia sempre é uma tarefa ingrata para quem resolve atacá-la (traduzir poesia é atacar os sentimentos de outra pessoa, encarnar eles em si mesmo e depois os transcrever), ainda mais quando a língua fonte é tão distinta como o mandarim é em relação ao português. Meu parco conhecimento sobre a língua me ajudou a entender o sentimento por detrás de cada verso, algo universal a todos os parafusos soltos do capitalismo, mas a minha fonte original é a tradução para o inglês, usando o mandarim apenas como bengala para quando eu achasse que a tradução em inglês tinha se perdido. Foram alguns meses de trabalho por pura paixão pelo tema, pela história de vida e pelo ódio ao capitalismo.
O que todos os que lerem, tanto a introdução, o posfácio e os poemas, irão perceber é o tema central e universal do deslocamento daqueles que sofrem de depressão em um mundo feito para que as pessoas nunca adoeçam. Você, quando adoece mentalmente, se torna o pária social que todos evitam. Quando você não consegue mais produzir como o capitalismo lhe diz que deve, você acaba virando um robô, automático e vazio, pulando de dia em dia e esperando que uma hora as coisas mudem ou você se vá. Xu Lizhi se foi. Resolveu por si só que era hora de deixar esse mundo doente e escancarou o problema das fábricas chinesas e seu sistema de produção interminável que precisa funcionar sempre, com precisão cirúrgica, para que pessoas do mundo todo comprem iPhones para tirar selfies pro Instagram.
Todos os dias milhares de pessoas morrem, fisicamente e figurativamente, por questões adjacentes ao capitalismo — a falta de dinheiro, de moradia, de estudo, de saúde, de educação, de empregos, de felicidade, de amizades, de pessoas — que matam todos nós um pouco a cada dia.
Vidas são secundárias no capitalismo tardio que vivemos.